[Entrevista] A volta do Raccoon!

Eis que o World RPG Fest acabou nos trazendo uma bela surpresa. Lendo post aqui, post acolá, caímos de pára-quedas lá no Rocky Raccoon!

Quem é RPGista curitibano das antigas deve se lembrar da loja que traz o simpático raccoon como mascote. Aqui em casa, o marido-nerd coleciona boas memórias. Metade da estante de coisas de RPG foi comprada lá. Assim como os primeiros livros d’O Senhor dos Anéis (muito antes do hype todo do filme), O Hobbit e as Crônicas de Dragon Lance em português de Portugal.

Reproduzo aqui as memórias que o marido-nerd tem da loja:

“A loja era pequena, deveria ter uns 20m² no máximo (posso estar errado, pois não lembro se tinha um segundo andar, neste caso dobrando isto), mas era no 1º andar que ficava o RPG. No segundo, se existia, era estoque ou mesas pra cards. No 1º ficavam as estantes e o caixa – as duas coisas que eu usava rs. Havia uma vitrine, e a loja ficava numa galeria na praça Osório se não me engano. Lembro que tinha 2 pessoas que atendiam, um rapaz e uma moça. Ambos atendiam muito bem a gente, faziam questão de decorar o nome de todos os clientes. Na segunda vez que fui lá, ele ainda lembrava do meu nome e fazia questão de me chamar por ‘Edson'”

Curiosos para saber mais sobre a volta do Rocky Raccoon, misteriosamente anunciada no site, entrevistamos o cabeça do negócio, o Helio Greca. Abaixo, ele nos conta como foi que a loja fechou, sua análise sobre os últimos 20 anos no mercado brasileiro de RPG, a origem do mascote e, atenção, sobre a futura Raccoon Café!

No boom do RPG dos anos 90, a Rocky Raccoon era uma das maiores lojas de RPG de Curitiba, e porque não, do Brasil. O bom atendimento da RR era marca registrada, os bons preços, e mesmo assim ela fechou as portas. O que aconteceu?

Não existe uma resposta simples e curta para essa pergunta, mas vamos lá…

Ocorreram várias fatores que levaram ao fechamento da Raccoon, mas o principal deles foi a economia.

Para quem não lembra, do início do plano real em 1994 até a liberação cambial de 1999, um dólar valia um real e vice-versa.

Nesta época pelo menos 70% do estoque da Raccoon era composto de produtos importados e como eu sempre fiz importação direta, por conseqüência as minhas contas eram em dólar.

Com a desindexação da moeda, da noite para o dia, a cotação do dólar foi às alturas. Por conseqüência o valor das minhas contas foram multiplicadas por 3 e isso acabou com as minhas reservas. A importação também se tornou inviável, acabando com a linha de produtos mais lucrativa com que eu trabalhava.

Então, a partir de 1999 fui forçado a trabalhar quase que somente com produtos nacionais, sendo que a grande maioria pertencia a uma grande distribuidora e editora da qual não citarei o nome.

Além da redução drástica no mix de produtos que a Raccoon comercializava, a margem de lucro também foi seriamente comprometida. Não sei como estão as coisas hoje, mas naquela época a margem que a grande distribuidora concedia aos lojistas era bem baixa.

Mesmo sem capital de giro consegui segurar as pontas por mais três anos. Mas com as contas lá em cima, o lucro lá em baixo, poucos lançamentos, produtos caros e todo o mercado na mão de uma única distribuidora, o golpe de misericórdia veio no final de 2001, quando recebi uma boa proposta de trabalho e uma bolsa de estudos, que não tive como recusar.

Por maior que fosse minha paixão pelo hobby, tinha responsabilidades e contas para pagar… E assim a Rocky Raccoon fechou as suas portas, mas tecnicamente continuou existindo, pois nunca encerrei a empresa já que sempre tive a intenção de voltar de alguma forma.

Qual o objetivo do site? Quem faz parte da equipe atual do site, são os mesmos da loja física?

O site é uma forma de eu me manter atualizado sobre o que acontece no mercado e ajudar a difundir o hobby, não somente o RPG, mas literatura fantástica, card e board games, quadrinhos, etc…

E por último, mas não menos importante, reencontrar os velhos amigos que freqüentavam a Raccoon.

Por hora a equipe sou eu, o Helio, o mesmo da loja física. Minha esposa revisa meus textos e por enquanto tive colaboração externa só em dois textos, um do Heric e outro do Andre. Quem quiser colaborar é só entrar em contato 😉

Desde quando ele está no ar?

Estou trabalhando no projeto há mais de seis meses, mas ele foi ao ar há pouco tempo, em 12 de abril.

Vocês pretendem mesmo criar uma loja com couver lúdico ao estilo da luderia? Em que pé estão esses planos?

Um café seria bem bacana e na verdade esse é um projeto bem antigo.
Quando o raccoon.com.br estiver bem estabelecido, eu terminar meu curso ainda não iniciado de barista e recuperar meu acervo de jogos, o Raccoon Café pode sair do papel. Daqui uns dois anos, quem sabe?

O quanto o jeito curitibano ajuda ou atrapalha na hora de pensar em um projeto como esse?

Como curitibano que sou, filho e neto de curitibanos, acho que estou bem integrado ao meio. Rs…

Já tivemos algo bem parecido com isso no início dos anos 90, um bar/loja/clube de RPG chamado Hobbit, que só deixou de existir por questões internas. Acredito na viabilidade de um projeto assim e de um bom retorno do público.

Existe a possibilidade de uma loja virtual?

Por hora não. Meu trabalho atual é justamente gerenciar um site de e-commerce e eu sei o quanto isso demanda tempo. Invariavelmente para administrar mais um e-commerce eu teria que abrir mão de alguma coisa. E escrever é mais divertido.

Em que iniciativas o racoon está atualmente envolvido?

Por enquanto ainda estou me inteirando do cenário atual, mas tem muita coisa bacana acontecendo.

Particularmente gosto do HeroQuest 2.0 do pessoal do Rpg Brasil, acho uma boa iniciativa para conquistar novos jogadores. Gosto também do que vocês fazem com o Taulukko, possibilitando a união de jogadores independente da localização geográfica.

Mas confesso que tenho vontade de retomar projetos antigos que foram abandonados por falta de tempo na época da loja. Estou conversando com um autor sobre traduzir para o português a versão free das regras de um sistema. Assim que a coisa toda esteja acertada, talvez o Raccoon inicie a sua própria iniciativa. Se der certo vocês serão os primeiros a saber.

Por que um racoon? Qual a história desse mascote?

Sou fã incondicional dos Beatles e queria que o nome da loja saísse do lugar comum e tivesse alguma coisa a ver com os caras.
Inicialmente a loja se chamaria Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band Rpg Shop, mas achei o nome um pouco longo.
Me decidi pelo Raccoon por existir um herói da Marvel, chamado Rocket Raccon, no Brasil rebatizado nos anos 80 de Rocky Raccoon. Inclusive o primeiro logo da Raccoon era com ele.
A letra da música também é sensacional e é um dos únicos personagens masculinos na discografia dos Beatles. Além do mais o raccoon é um bichinho muito simpático.

Para vocês que estão há duas décadas olhando o mercado desse hobby, como vêem as mudanças nesses últimos 20 anos?

Caramba, essa é difícil, porque aconteceu muita coisa neste 20 anos… A compra da TSR pela Wizards of the Coast e depois a compra da Wizards pela Hasbro é digna de nota. O maior RPG e o maior Card Game na mão de uma mega-corporação é Shadowrun demais.
Outra grande mudança nesse período foi proporcionada pela Internet… Quando eu estava fechando a Raccoon, a internet estava começando a se consolidar e hoje ela é ferramenta fundamental nesse meio.

Você dispõe hoje de bons sistemas, absolutamente gratuitos para download. E não estou falando de pdf pirata. Estou falando de jogadores produzindo seu próprio material, de altíssima qualidade. Somente pelo custo da impressão, os jogadores de hoje dispõe de bons sistemas, cenários e aventuras prontas.

Os também autores não dependem mais de editoras, distribuidoras e afins para lançar seu material e os jogadores por sua vez não dependem mais de lojas físicas para comprá-los. Isso é extremamente positivo.

No mercado nacional posso assinalar a consolidação da Jambô como grande editora. Isso é muito positivo para haver um equilíbrio de forças, não deixar todo o mercado na mão de um só grupo.

Acha que houve uma queda e um ressurgimento? Qual o impacto do selo D20 nesse movimento?

No cenário nacional acho que houve uma queda sim. Nos anos 90 tivemos grandes editoras entrando nesse mercado, para logo em seguida saírem e possivelmente desconsiderarem qualquer possibilidade de retorno. Depois disso, houve um período de relativa estagnação, com somente uma única “grande” editora/distribuidora monopolizando o no mercado.

As coisas estão começando a caminhar outra vez. Acho positivo a Devir focar em somente duas linhas principais e a Jambô se consolidar cada vez mais como uma grande editora.

Com relação ao D20, a idéia em si é muito interessante, porém com segundas intenções demais. Para ser sincero eu nunca fui muito simpático ao movimento.

É adepto do movimento Old School? O que pensa sobre ele?

Essa é a parte mais engraçada. Quando fechei a loja era um absurdo alguém gostar dos sistemas que eu gostava. Tunnels and Trolls? Dungeoneer? Creeedo… Sistemas ultrapassados e obsoletos.

Agora descobri que eu não estou mais fora de moda, agora eu sou Old School e isso é cool! Rs… Ficar velho tem suas vantagens. A moda volta e você nem saiu dela ainda.

E, por fim, o D&D 4E? Acha que pode trazer gente nova para esse mercado?

Cada nova edição de D&D é a mesma polêmica. Sempre tem os que odeiam e os que adoram. Desisti disso quando o D&D perdeu o Advanced. Prefiro meu Tunnels & Trolls velho de guerra.

Sou meio cético com relação ao potencial da 4E trazer gente nova para esse meio. Acho que no mercado nacional não existe muita coisa realmente direcionada a conquistar novos jogadores, caixas que encham os olhos e despertam a curiosidade como as do Hero Quest, Dragon Quest e afins.

A meu ver, uma aventura solo de R$20,00 da Jambô acaba tendo muito mais potencial para atrair novos jogadores.

O que vocês acham que falta para movimentar ainda mais esse mercado hoje?

Consumo. Desde a época da Raccoon vejo os jogadores reclamarem da falta de lançamentos, mas a mecânica da coisa é simples: se houver demanda, haverá produção. Cada pdf pirata baixado da internet é uma chance a menos de lançamento no mercado nacional, cada compra é uma chance a mais de novos lançamentos.

Como avalia a situação atual – os eventos de hoje e atividade blogueira ajudam?

A atividade blogueira é o que há de mais produtivo atualmente. E os eventos estão passando para a mão dos jogadores, basta ver o exemplo do sucesso da World Rpg Fest aqui em Curitiba para ver que a coisa funciona bem.

Qual a mensagem que vocês dariam para os seus antigos e fiéis clientes?

Bem, não sei se é da forma esperada, mas o Raccoon está de volta, com certeza mais maduro e experiente.

P.S.: as ilustrações do raccoon foram feitas por quadrinistas e ilustradores que freqüentavam a Raccoon. E nós, por aqui, estamos no aguardo da Raccoon Café!

R$ 4,5 mil, com emissão de nota fiscal incluída

3 Comments

  1. Diego
    Posted 11 de maio de 2010 at 17:24 | Permalink

    Eu comprei meu primeiro Livro do Jogador na Rocky… lembro até hoje meu telefonema pra lá, feito de um orelhão na frente de um bar 😛 Antes disso ia direto lá comprar Magic. Bons tempos.

  2. Posted 11 de maio de 2010 at 17:49 | Permalink

    Pelo texto entendi que houve dois endereços da RR, eu conheci apenas o da praça Osório. Concordo com o Diego acima, Bons tempos!

  3. Carlos
    Posted 6 de junho de 2010 at 14:11 | Permalink

    A Raccoon foi o lugar que eu mais frequentei na minha adolecencia. Comprava todos os meus livros fiado, pra pagar pingadinho. O Helio era gente boa demais….

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