Malleus Maleficarum

Malleus Maleficarum

250px-malleus_1669 Nos anos 80 – não do século passado, mas há 600 anos – a caça às bruxas teve seu ponto mais alto. Nessa época, dois padres dominicanos escreveram um livro que se tornou o tratado de como se caçar bruxas. Seu nome? Malleus Maleficarum, mas também conhecido como Martelo das Bruxas ou simplesmente Manual de Caça às Bruxas.

Um pouco de história:

Antes de falarmos da obra é bom entendermos o contexto. Tudo começa no século 4 quando a Igreja Romana se converteu ao cristianismo, alterando seus deuses para santos e instaurando a Igreja Cristã como oficial. Apesar da conversão, as religiões estavam espalhadas por diversas tribos, e os rituais eram tão diversos e tão espalhados que apenas “santificar” alguns deuses não resolvia o problema diplomático religioso.
Na Idade Média este problema religioso se agravou e passou a ocorrer uma coisa que é muito visível aqui no Brasil: a “multi-religiosidade” dos fiéis. Apesar do cidadão ser fervorosamente cristão (católico ou protestante), quando a vaca azedava o leite além das rezas ele fazia um trabalhinho ali em favor de um deus de uma religião local, ou cuspia ao entrar numa igreja para alegrar um deus de uma religião da cidade vizinha, ou ainda proferia algumas palavras durante a reza para agradar algum deus da natureza, ou ainda (e talvez muitas vezes tido como principal) omitia alguns pontos na hora de se confessar.
No Brasil isto é chamado de “kit-fé”. O cidadão é católico mas vai ao centro kardecista na segunda-feira, vai a uma vidente na quarta, na quinta ele vai a um centro de umbanda e no sábado ele vai ver a pregação de um pastor em uma igreja onde ele se sente bem. Esse tipo de coisa foi considerado intolerável para a Igreja na época. E, apesar dos líderes religiosos terem suas bases espirituais para agir, a condenação não era apenas espiritual e sim um ato de vingança e violência. Todas as pessoas que não seguiam seus credos eram então torturadas, castigadas e queimadas. A liberdade religiosa havia acabado, mas isto, isto era apenas o começo…  A Inquisição mandou para a fogueira milhares e milhares de pessoas na Europa e em todo o mundo, e este ato foi causado por 3 coisas:

  • Histeria do Povo, pois quem seguia corretamente a religião começou a fantasiar conspirações malignas em tudo.
  • Ferramenta política. Como os bens dos condenados iam para o Estado ou para a Igreja, era bem conveniente enviar para a fogueira homens ricos ou com aquisições interessantes.
  • As pessoas eram torturadas geralmente até dizerem um culpado, quem o seduziu para bruxaria ou um novo bruxo. Muitos acabaram citando ou inventando situações “criminosas” e novos culpados surgiam para encerrarem a tortura e/ou para o réu morrer de forma menos dolorosa. Isto levou a um crescente número de pessoas executadas entre 1550 e 1650.

O movimento não teve um fim oficial, mas suas atividades no século XVIII eram praticamente nulas se comparado ao resto.

Estima-se que um total de 50 mil pessoas foram executadas, sendo que mais de 90% delas jamais cultuaram um segundo deus senão o deus cristão.

O Livro:

manual

O Martelo das Bruxas foi escrito por Heinrick Kramer e Jacobus Sprenger com a intenção de criar um tratado sobre tudo que se “sabia” a respeito de como lidar com as bruxas. Aliás, bruxas tanto eram homens como mulher. Hoje dizemos “bruxo”, mas na realidade nunca houve o termo bruxo. Homens que faziam ações em prol do demônio eram chamados igualmente de “bruxas”. Mas voltando ao livro, este é dividido em capítulos escritos de modo claro e com exemplos.

O livro é dividido em duas Questões, e cada qual conta com diversos capítulos. Os capítulos têm como título o assunto que nele é debatido, como “Métodos diabólicos de atração e sedução”, “O pacto com o mal”, “Os meios de transporte da bruxa”, “Relação sexuais com incubos”…
Nestes capítulos é possível encontrar desde explicações mais simples de como detectar uma bruxa, até alguns rituais complexos feitos por elas.

Como usar isso?

Imagine você chegar numa hospedaria, num dia chuvoso e após pagar por uma cerveja ouvir na mesa do lado:
“Então quando o cozinheiro do arquiduque se casou com uma honesta jovem da cidade de Rygar, uma bruxa que tinha sido sua amante, encontrou com eles na Encruzilhada das Pedras e, diante de outras pessoas honestas, predisse o enfeitiçamento e morte da moça, apertando sua mão e dizendo: “Não gozará seu marido por muito tempo.” E logo, no dia seguinte, a moça caiu de cama e depois de alguns dias pagou o saldo de toda sua carne, exclamando ao expirar: “Oh! Assim morro por causa daquela mulher que, com a permissão de Deus, matou-me com sua bruxaria, porém, na verdade, vou para outro e melhor casamento com Deus.”

O texto acima precisou ser apenas levemente adaptado, mas ele encontra-se inalterado no capítulo XII do manual em “Exemplos vistos pelos Inquisitores”. Desta e de muitas outras o livro pode dar mais veracidade em suas histórias, afinal estudar história sempre é bom, mais ainda se envolve seres fantásticos, bruxas, demônios, sociedades secretas, ou até algo mais próximo do real, uma sociedade inquisitora prestes a botar todo mundo na fogueira.
Estou mestrando uma campanha, por exemplo, onde a magia é determinantemente proibida. Inspirar-se nos métodos deste livro para saber como o clero da Igreja dominante age e pensa é fundamental.
Ou então se você quer criar a história numa vila atacada por bruxas reais, o livro trará vários exemplos para você criar uma bruxa aos moldes do que os padres da época caçavam.
Ou sua intenção é criar um personagem inquisitor? Boas dicas também.
Centenas de exemplos podem ser dados para se criar campanhas, aventuras, livros, contos ou apenas um personagem. E este livro você conseguirá em inglês na internet ou em português em sebos por valores entre R$10 a R$20, então é sem dúvida uma boa aquisição e uma forma de tirar algum proveito positivo nesta histeria que movimentou a Idade Média e a Idade Moderna =)

2 comentários sobre “Malleus Maleficarum

  1. Esqueceu de dizer que ter estes livros em casa já é um motivo de caça às bruxas.

    Chute o gato do vizinho, leia um gibi na banca sem pagar, não forre seus lençois da cama, jogue RPG e tenha estes livros em casa e pronto!

    Nova Santa Inquisição!!!

    Quem diria que os manuais de perseguição agora estejam sendo perseguidos.

    Curtir

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